“ODS 8 – Trabalho decente e crescimento econômico: Promover o crescimento econômico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos” (ONU).
Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/8
Por Junior Garcia
A Economia, enquanto sistema econômico, é um subsistema aberto que utiliza recursos naturais e energia para produzir bens e serviços e, ao mesmo tempo, gera resíduos. O Produto Interno Bruto (PIB), valor monetário de todos os bens e serviços comercializados normalmente em um ano em um país, esconde uma dependência essencial dos fluxos de matéria e energia do meio ambiente para o funcionamento desse subsistema econômico. O crescimento econômico (leia-se do PIB) reflete diretamente o aumento no uso de recursos naturais e na geração de resíduos. Essa visão, apresentada pela Economia Ecológica, fundamentada na Economia Biofísica e na Física Termodinâmica, destaca que toda atividade econômica está amarrada aos limites biofísicos do planeta.
Contudo, economistas e tomadores de decisão defendem que seria possível dissociar o crescimento econômico da extração de recursos e da poluição, fenômeno conhecido como “desacoplamento” ou “desmaterialização” da economia, criando uma ideia de crescimento econômico sustentável. Acredita-se que, com o desenvolvimento de tecnologias mais eficientes, também conhecidas como tecnologias verdes, a Economia poderia crescer sem aumentar o consumo de recursos e a geração de resíduos. Mas, independentemente da falta de sustentação teórica para esse mito, as evidências empíricas indicam que a desmaterialização real da economia está longe de ser atingida.
Em 2024, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) publicou o relatório Perspectivas dos Recursos Globais 2024, que avalia as tendências, impactos e efeitos do uso de recursos naturais no mundo. A análise abrange recursos como biomassa, combustíveis fósseis, metais, minerais não-metálicos, terra e água, e aponta que a sociedade enfrenta uma tripla crise ambiental planetária: mudança climática, perda de biodiversidade e poluição. Avaliar o fluxo desses recursos é, portanto, essencial para enfrentar a crise ambiental global.
Em 1970, a extração global de materiais era de cerca de 30 bilhões de toneladas, enquanto em 2024 alcançou 106,6 bilhões de toneladas, um aumento de 255%. Em termos per capita (por pessoa), o consumo médio global passou de 8,4 toneladas em 1970 para 13,2 toneladas em 2024, um aumento de 57%. Projeções apresentadas no relatório indicam que, sem uma mudança substancial nos padrões de consumo e produção, a extração de recursos poderá crescer até 60% adicional até 2060 em relação aos níveis de 2020, tendo os setores da construção, mobilidade, alimentos e energia respondendo por cerca de 90% da demanda total de materiais. Esses dados ressaltam que o crescimento econômico ainda impulsiona o consumo de recursos naturais, desafiando o mito do “PIB imaterial” e a expectativa de um crescimento dissociado de impactos ambientais.
Em 2023, o PIB global foi estimado em US$ 105,4 trilhões. Países de alta renda responderam por 64% desse valor, embora representem apenas 17,5% da população mundial. Por outro lado, países de baixa renda, que abrigam 9% da população mundial, representam apenas 0,61% do PIB. Este descompasso destaca que países mais ricos, apesar de abrigarem uma parcela menor da população global, têm um consumo de recursos e geração de resíduos extremamente desproporcional, reforçando um cenário de injustiça ambiental e aprofundando a crise ambiental com mitos, como o mito do PIB imaterial.
A origem da crise ambiental, portanto, está intimamente ligada ao crescimento econômico (leia-se PIB), especialmente o crescimento do PIB dos países ricos, que são os principais responsáveis pelo uso exacerbado de recursos e a degradação ambiental. O mito da desmaterialização, amplamente aceito, ignora o limite finito dos recursos e alimenta a ilusão de que a economia pode se expandir indefinidamente sem impactar o meio ambiente. No entanto, uma mudança de paradigma é necessária para um futuro mais sustentável e justo, e a Economia Ecológica oferece uma estrutura teórica e prática para repensar a relação entre Sociedade, Economia e Natureza, reafirmando a urgência de incorporar o subsistema natural nas decisões econômicas e sociais.
Assim, ao refletirmos sobre o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8), que busca promover um crescimento econômico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo, a partir da perspectiva da Economia Ecológica, fica uma pergunta essencial: seria realmente possível atingir um PIB imaterial, ou o crescimento econômico sustentável permanece apenas um mito?
Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.
Notas
¹ O Chat GPT foi utilizado na revisão da redação e organização do artigo.
Tags: crescimento econômico, Desenvolvimento Econômico, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, ODS