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O Fetiche do Bem-Estar: quando a felicidade vira um dever

 

 

Preparado pelo ChatGPT, versão gratuita.

 

Por Junior Garcia

 

Quem ousaria questionar o bem-estar? Nenhum governante, economista ou empresa deixaria de proclamá-lo como objetivo maior de suas ações. Políticas públicas prometem ampliá-lo, índices buscam medi-lo, e a economia tem sido organizada em torno de sua maximização. Multiplicam-se ainda os adjetivos, como bem-estar econômico e bem-estar social, além de suas variantes: felicidade, bem viver, viver saboroso, florescimento humano e realização do potencial humano. Faces de uma mesma moeda, a busca pelo bem-estar. Mas talvez devêssemos começar por uma pergunta incômoda: o que é, afinal, o bem-estar que todos dizem perseguir?

A resposta raramente aparece, pelo menos de maneira objetiva e clara. O bem-estar é tratado como algo autoevidente, uma palavra que dispensa definição, e talvez é justamente aí que reside seu poder. O termo converteu-se em um fetiche social, um símbolo que ganha valor em si mesmo, independente do que representa. Como destacou Georgescu-Roegen, certos conceitos vivem na penumbra dialética: são claros o bastante para parecerem significativos, mas vagos o suficiente para escaparem de qualquer crítica. O “bem-estar” habita essa penumbra dialética, em que ninguém sabe exatamente o que é, mas todos o desejam e mobilizam mundos e fundos para alcançá-lo.

O discurso econômico tentou dar-lhe corpo. O PIB (Produto Interno Bruto), as métricas de felicidade, como o Índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Indicador de Progresso Genuíno (IPG), o Índice para uma Vida Melhor da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e outros, como o Índice de Progresso Social, seriam expressões tangíveis desse ideal. Porém, o esforço de medir o imensurável terminou por reduzir o bem-estar àquilo que se pode contar: renda, consumo, produtividade e expectativa de vida. A vida foi traduzida em números. E assim o meio, o processo e o crescimento econômico, transformou-se no fim em si mesmo. O “bem-estar” tornou-se apenas outro nome para a expansão indefinida do sistema econômico.

Mas o fetiche não se limita ao campo econômico, também se metamorfoseia em expressões igualmente sedutoras, como florescimento humano, potencial individual, felicidade e o desenvolvimento de capacidades ou o exercício das liberdades. A filosofia moral e a psicologia positiva, de Amartya Sen a Martha Nussbaum, de Seligman aos manuais de autoajuda, e na era dos influencers, reforçam a crença de que o propósito da vida é realizar o “máximo potencial” de cada um. A sociedade parece convencida de que viver bem (viver a vida) é uma questão de esforço pessoal, de aperfeiçoamento interior e de autossuperação. E, assim, o peso de um ideal indefinido cai sobre os ombros de cada indivíduo, especialmente sobre as futuras gerações. Afinal, quem já não foi questionado quando criança, o que você quer ser quando crescer?

Essa inversão tem efeitos devastadores. Ao transformar o bem-estar em meta pessoal, a sociedade exime-se da responsabilidade pelas condições reais de existência. Crianças e adolescentes crescem acreditando que, se não são felizes, é por falha própria, porque não estudaram o suficiente, não por viverem em contextos de desigualdade, insegurança ou degradação ambiental, ou simplesmente por não saberem o que de fato devem buscar na vida. O sofrimento é privatizado e patologizado, tratado como desajuste individual, e não como sintoma social. O resultado é uma epidemia de ansiedade e frustração em meio à abundância material e ao colapso ecológico.

O paradoxo é cruel: quanto mais se fala em bem-estar, mais distante ele parece. Isso porque tentamos defini-lo dentro dos limites do próprio sistema que o inviabiliza. O bem-estar, assim entendido, depende de crescimento econômico infinito, do consumo infinito e dos desejos insaciáveis, mas os meios são finitos, especialmente o tempo, recurso ignorado em qualquer análise socioeconômica. Vivemos pautados pelo imediato, sem tempo para nada, apesar dos ganhos de produtividade e da abundância de bens e serviços à disposição. Depende de consumo crescente, mas o consumo como um ato de exaustão, uma válvula de escape. Depende da promessa de que todos podem florescer individualmente, mas a vida humana é radicalmente interdependente. Georgescu-Roegen destacou que a sociedade e a economia não podem ser tratadas como um sistema isolado da biosfera. Essa visão é complementada pela perspectiva ecofeminista, que recorda que não vivemos isolados. É necessária toda uma rede de proteção para assegurar a vida em seu início e em seu fim, pois somos mortais, e até isso temos esquecido. O “fetiche do bem-estar” é, portanto, o disfarce ideológico da insustentabilidade e de uma sociedade perdida, em busca de âncoras que tornem a vida suportável.

Talvez o desafio não seja perseguir o bem-estar, mas redefinir o que significa viver a vida. E isso não se alcança pela acumulação de conforto ou pela expansão de desejos, e sim pela sustentação das condições que tornam a vida possível, o que inclui o cuidado com os outros e com o planeta. O verdadeiro problema não é não saber o que queremos, mas não perceber que o que queremos depende do que fazemos ao mundo e aos outros, humanos e não humanos. Enquanto não enfrentarmos essa penumbra conceitual, essa fantasia compartilhada, seguiremos correndo atrás de uma miragem. O fetiche do bem-estar nos promete um horizonte de plenitude, mas, como todo fetiche, nos prende a um ciclo de falta e desejo. Talvez o primeiro passo para viver a vida seja justamente abandonar a ilusão de que sabemos o que é viver, orientada pela busca por uma miragem, e, sobretudo, de que podemos impor essa fantasia às futuras gerações.

Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.

Notas

¹ O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo. 

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