
Por Junior Garcia
A Curva de Phillips ocupa posição central na macroeconomia contemporânea, apesar de suas limitações. Em suas diferentes versões, aceleracionista, novo-clássica ou novo-keynesiana, estabelece uma relação entre inflação e nível de atividade econômica (ou desemprego). Ainda que os mecanismos variem, uma implicação recorrente é a seguinte: reduzir a inflação tende a exigir desaceleração da atividade econômica, frequentemente acompanhada por aumento do desemprego. Essa relação é frequentemente enfatizada nos comunicados do Banco Central e no Relatório Focus. Esse custo real da desinflação é conhecido como taxa de sacrifício.
A divulgação da taxa de variação do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025 ilustra essa implicação. O resultado de 2,3% em 2025 em relação a 2024 foi justificado, pelos analistas e economistas, como sinal de que a política monetária está fazendo efeito. Isso significa que a elevação da SELIC está reduzindo o ritmo da atividade econômica, na tentativa de assegurar uma inflação dentro da meta de inflação de 1,5% a 4,5%, tendo 3% como centro da meta.
No regime de metas de inflação adotado no Brasil desde 1999, o Banco Central opera implicitamente com alguma versão dessa lógica. Quando a inflação supera a meta, a elevação da taxa básica de juros (SELIC) busca reduzir o hiato do produto, conter a demanda agregada e, assim, aliviar pressões inflacionárias. O mecanismo supõe que parte relevante da inflação decorre de excesso de demanda. Esse é um pressuposto fundamental do modelo. Nesse contexto, o desemprego não é apenas um indicador social, mas também um canal de transmissão da política monetária.
A questão central, contudo, não é apenas se a Curva de Phillips funciona “em média”, mas sob quais condições descreve adequadamente a realidade brasileira. A inflação no Brasil frequentemente apresenta componentes associados a choques de oferta, como variações no câmbio, preços internacionais de commodities, energia (especialmente o petróleo), alimentos e preços administrados etc. Nesses casos, a elevação da taxa de juros reduz a atividade econômica, mas não elimina a origem estrutural do aumento de preços. Agora com o ataque dos EUA ao Irã, levando ao fechamento do Estreito de Ormuz e a insegurança na região, o preço do petróleo já iniciou tendência de alta, naturalmente o COPOM pode mudar sua posição de redução da SELIC anunciada na última reunião, para manutenção ou mesmo aumento, uma vez que esse cenário poderá gerar pressão inflacionária no Brasil. Surge então uma pergunta incômoda: estamos pagando desemprego para combater uma inflação que não foi gerada por excesso de demanda?
A discussão torna-se ainda mais complexa quando se considera a dimensão ecológica da economia. A teoria macroeconômica tradicional costuma representar o produto potencial como função de capital e trabalho. Entretanto, toda atividade econômica depende de energia, recursos naturais e estabilidade climática, além da geração de resíduos. Choques associados a eventos climáticos extremos, restrições energéticas ou transições ambientais podem gerar pressões inflacionárias que não são essencialmente monetárias ou demand-driven, mas biofísicas.
Se parte da inflação contemporânea estiver associada a limites ecológicos, como escassez de recursos ou instabilidade climática, a política monetária enfrenta restrições importantes. A elevação de juros pode reduzir a demanda, mas não amplia a disponibilidade de energia, não estabiliza o clima e não recompõe cadeias produtivas afetadas por eventos ambientais. Nesse cenário, a taxa de sacrifício deixa de ser apenas uma medida econômica e passa a revelar uma tensão mais profunda entre estabilização macroeconômica e limites estruturais do sistema produtivo.
A Curva de Phillips continua sendo uma ferramenta analítica relevante. Porém, sua validade empírica e normativa depende das hipóteses que adotamos sobre a origem da inflação e sobre a própria natureza do produto potencial. A pergunta que permanece aberta é: até que ponto a política monetária pode estabilizar preços em uma economia sujeita não apenas a ciclos de demanda, mas também a restrições estruturais e ecológicas e, por conseguinte, choques de oferta?
Essa reflexão não invalida complemente a relação inflação, produto e desemprego, mas amplia seu horizonte. Compreender os limites da Curva de Phillips talvez seja tão importante quanto dominar sua formulação matemática.
Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.
Notas
¹ O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo.
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