“Com exceção do sono, os humanos passam a maior parte de suas vidas trabalhando do que em qualquer outra atividade.” (Erik Gomez-Baggethun, 2022).

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Por Junior Garcia
A crise socioecológica colocou a necessidade de revisão de inúmeros conceitos econômicos convencionais, tais como crescimento econômico, Produto Nacional, emprego ou trabalho, inflação, entre outros. A MacroEconomia Ecológica busca integrar à visão pré-analítica da Economia Ecológica ao estudo macroeconômico. A Economia Ecológica considera o sistema econômico como um subsistema aberto ao fluxo de matéria e energia do subsistema ecológico, que é um subsistema fechado ao fluxo de matéria.
Um conceito essencial para o alcance do propósito do subsistema socioeconômico é o trabalho, o qual precisa ser revisado à luz da MacroEconomia Ecológica. Com exceção do sono, os seres humanos passam mais tempo de suas vidas trabalhando do que em qualquer outra atividade. No entanto, a centralidade do trabalho na vida cotidiana está em crise, por exemplo, o aumento do estresse e de esgotamento psicológico e físico, movimentos como a “Grande Renúncia”, nos Estados Unidos, e o “Tang Ping”, na China, expressam a rejeição ao excesso de trabalho. A sociedade estaria despertando para os efeitos negativos ou custos do trabalho.
Curiosamente, mesmo diante da automação e da disponibilidade de tecnologia sem precedentes na história, a visão ideológica dominante continua sustentando que reduções substanciais na jornada de trabalho são inviáveis. Gómez-Baggethun (2022) argumenta que o principal obstáculo não é técnico nem econômico, mas cultural (institucional): são os valores e crenças que sustentam a centralidade do trabalho nas sociedades ocidentais que dificultam mudanças significativas.
É nesse ponto que cabe ressaltar que o conceito de trabalho não é natural nem imutável. O entendimento do termo trabalho é uma construção social, moldado por crenças e instituições, que podem ser tratadas pela perspectiva das fantasias compartilhadas que organizam a vida coletiva. Assim como ocorre com outras convenções sociais, o trabalho pode ser redefinido. Na MacroEconomia Ecológica, isso significa incorporar à noção de trabalho não apenas a partir de sua dimensão produtiva e remunerada, o chamado trabalho econômico ou produtivo, mas também a complexidade das relações sociais e biofísicas que garantem a reprodução da vida. O trabalho deve ser visto como o meio necessário para auxiliar na garantia dos meios para sobrevivência humana individual e coletiva.
A história nos mostra como o significado do trabalho mudou ao longo do tempo. Na Antiguidade, Sócrates e Platão viam o trabalho como uma atividade servil, degradante. Na Idade Média, o ora et labora consolidou gradualmente a associação entre trabalho, dignidade e devoção. Com a Revolução Industrial, o trabalho se transformou em disciplina, medido em horas e desvinculado dos ritmos da natureza. No século 20, tecnologias supostamente poupadoras de tempo muitas vezes aumentaram as tarefas, sobretudo no trabalho doméstico, reforçando desigualdades de gênero. Hoje, ainda que se fale em automação, persiste a glorificação do trabalho como atividade produtiva, frequentemente em detrimento do lazer e do bem-estar.
Essa evolução histórica evidencia que o trabalho pode ser repensado. No pensamento utópico, destacam-se duas visões. A primeira defende a libertação pelo trabalho, transformando-o em uma atividade significativa, criativa e prazerosa. A segunda, a libertação do trabalho, busca reduzir sua centralidade e ampliar o tempo de lazer, autoprodução e engajamento comunitário. Ambas enfrentam limitações: nem todo trabalho pode ser prazeroso e a automação total é ecologicamente inviável.
Diante disso, a MacroEconomia Ecológica propõe uma nova perspectiva: entender o trabalho como parte intrínseca da condição humana (ver o trabalho a Condição Humana de Hannah Arendt), necessário para a reprodução social, mas que deve ser reorganizado de acordo com os limites planetários e com princípios de suficiência e justiça distributiva. Isso implica reconhecer que cada pessoa capaz deve contribuir com sua parcela justa do “trabalho necessário” (ver o trabalho a Escala necessária da economia brasileira) e que é preciso redefinir as normas de remuneração, compartilhar e redistribuir tarefas e reduzir o volume de trabalho associado ao consumo excessivo, incluindo o trabalho associado as atividades de cuidado.
A lição histórica é clara: o progresso tecnológico, por si só, não nos libertará do trabalho. As grandes conquistas na redução da jornada vieram de lutas sociais organizadas, não de mudanças espontâneas de mercado. Portanto, mudanças estruturais só ocorrerão mediante maior controle democrático sobre a economia, a tecnologia e o próprio conceito de trabalho.
Se o trabalho é uma fantasia compartilhada – construção social –, então podemos reinventá-lo de acordo com o contexto do século 21 e as contribuições da MacroEconomia Ecológica. Não mais como engrenagem do crescimento econômico infinito, mas como prática humana justa, sustentável e integrada aos limites biofísicos do planeta. Assim, como podemos contribuir para a construção de uma concepção de trabalho coerente com a MacroEconomia Ecológica?
Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.
Notas
¹ O Chat GPT e Microsoft Copilot foram utilizados na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo.
Tags: crescimento sustentável, crescimento verde, mudanças climáticas, Sustentabilidade