
Por Junior Garcia
Repensar os fundamentos da macroeconomia exige, antes de tudo, uma mudança na forma como enxergamos a relação entre economia, sociedade e natureza.
Em um contexto marcado por crises ambientais cada vez mais evidentes, cresce a percepção de que compreender os desafios do século 21 exige também repensar a forma como enxergamos o funcionamento dos processos econômicos. Em geral, imaginamos que o avanço da ciência ocorre principalmente por meio de novos métodos, dados mais sofisticados ou modelos mais complexos. No entanto, uma observação metodológica clássica de Joseph A. Schumpeter nos lembra que a ciência começa antes disso. Em History of Economic Analysis, o autor argumenta que todo esforço analítico é precedido por um ato cognitivo pré-analítico, isto é, uma forma inicial de enxergar a realidade. Antes de qualquer teoria ou modelo, os pesquisadores precisam primeiro visualizar os fenômenos que consideram dignos de investigação. Schumpeter chamou esse ato de “visão pré-analítica”.
Essa ideia tem implicações profundas para o campo da economia. O que estudamos, quais perguntas consideramos relevantes e quais relações julgamos plausíveis dependem da maneira como enxergamos o sistema, ou o processo econômico. Em outras palavras, o estudo econômico não começa com equações, mas com uma forma de ver o mundo e os processos econômicos.
Durante grande parte do século 20, a macroeconomia consolidou uma visão específica da realidade econômica. Nessa perspectiva dominante, a economia é frequentemente tratada como um sistema, ou processo, essencialmente monetário e produtivo, cujo desempenho é avaliado por variáveis como crescimento do produto, inflação e emprego. O meio ambiente aparece, quando muito, como um conjunto de recursos, como fonte de externalidades e de direitos de propriedades (bens públicos) a serem corrigidos, geralmente na perspectiva microeconômica das falhas de mercado. Essa forma de ver o processo econômico estruturou grande parte dos modelos, indicadores e políticas macroeconômicas adotadas nas últimas décadas.
Entretanto, as crises ambientais contemporâneas, como o agravamento de eventos climáticos extremos, a perda de biodiversidade, a degradação dos ecossistemas, a poluição em todas as suas formas e a crescente pressão sobre os recursos naturais, revelam limites importantes dessa visão econômica. Cada vez mais se torna evidente que a economia (processos econômicos) não pode ser compreendida isoladamente do sistema ecológico que a sustenta.
“Talvez o primeiro passo para uma MacroEconomia Ecológica seja simplesmente aprender a ver o sistema econômico de outra forma.”
É nesse contexto que emerge a Economia Ecológica, propondo uma mudança fundamental na maneira de enxergar o sistema, ou processo, econômico. Em vez de tratar o meio ambiente como um setor periférico ou externo da análise econômica, a Economia Ecológica parte de uma premissa diferente: a economia é um subsistema da biosfera, dependente de fluxos de energia e matéria e condicionado por limites biofísicos.
Essa mudança de perspectiva não é apenas um ajuste teórico. Trata-se, essencialmente, de uma transformação da visão pré-analítica da economia e do processo econômico. Quando passamos a ver a economia como parte de um sistema ecológico maior, novas perguntas se tornam inevitáveis:
Essas questões estão no centro do que vem sendo chamado de MacroEconomia Ecológica, um campo emergente de pesquisa que busca repensar os fundamentos da análise macroeconômica à luz dos desafios socioecológicos do século 21. Nos últimos anos – desde a crise econômico-financeira de 2007/08 –, esse campo tem se desenvolvido rapidamente no debate internacional, reunindo contribuições que procuram integrar estabilidade macroeconômica, sustentabilidade ecológica e justiça socioambiental.
Nesse sentido, retomar a reflexão de Schumpeter é particularmente oportuno. Antes de desenvolver novos modelos ou instrumentos de política macroeconômica, talvez seja necessário algo mais fundamental: aprender a ver a economia (o processo econômico) de outra forma. Como destacou Schumpeter, “suponha que começássemos do zero: quais seriam os passos que teríamos de seguir?”. Mas como seria pensar os processos econômicos partindo do zero?
A construção de uma MacroEconomia Ecológica depende justamente desse exercício intelectual coletivo: revisar os pressupostos implícitos que orientam nossa forma de compreender o funcionamento das economias, ou dos processos econômicos. Nesse sentido, talvez um primeiro passo para uma MacroEconomia Ecológica seja questionar o próprio uso do termo “economia”, passando a adotar uma expressão mais abrangente, como processos socioeconômicos, que explicita melhor sua inserção nas dinâmicas sociais e ecológicas.
O trabalho de grupos de pesquisa, redes acadêmicas e iniciativas de reflexão crítica torna-se, portanto, essencial. Criar espaços para questionar visões estabelecidas, explorar novas abordagens e integrar conhecimentos provenientes da economia, da ecologia e das ciências sociais é parte do processo de construção dessa nova agenda. Nesse contexto, vale destacar o trabalho realizado pelo Grupo de Estudos em Macroeconomia Ecológica (GEMAECO).
O GEMAECO é uma iniciativa acadêmica dedicada ao desenvolvimento e à difusão de pesquisas sobre as relações entre macroeconomia, sociedade e meio ambiente. O grupo reúne pesquisadores e estudantes interessados em repensar os fundamentos da análise macroeconômica a partir das contribuições da Economia Ecológica, buscando avançar na construção de uma agenda de pesquisa e de políticas econômicas orientadas pela sustentabilidade ecológica, pela estabilidade socioeconômica e pela justiça socioambiental.
Mais do que uma mudança técnica, pensar uma MacroEconomia Ecológica significa abrir caminho para uma nova forma de compreender a relação entre economia, sociedade e natureza. Como sugeria Schumpeter, toda transformação científica começa com uma nova visão. Diante dos desafios do nosso tempo, desenvolver uma nova visão para a macroeconomia não é apenas um exercício intelectual: é também uma tarefa urgente para orientar as escolhas econômicas das próximas décadas. É nesse horizonte que se insere o trabalho do GEMAECO.
Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.
Notas
¹ O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo.
Tags: desenvolvimento humano, ecologia, justiça socioambiental, Sustentabilidade