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Sobre guerras, clima e meio ambiente

 

Por Daniel Caixeta

 

Fonte: criada pela IA do Canva.

 

Os conflitos bélicos mais relevantes da atualidade dão sinais de que não serão passageiros. A invasão russa na Ucrânia – e o consequente confronto entre os dois países – vai completar 3 anos em fevereiro de 2025. A situação de guerra no Oriente Médio – inicialmente mais restrita à Faixa de Gaza – completou 1 ano nessa semana e parece querer se alastrar para outros locais no Oriente Médio, com riscos crescentes de envolvimento direto de outros países, o que poderia provocar uma verdadeira convulsão regional.

Não é objetivo desse texto fazer uma avaliação geopolítica dessas situações e contextos, tampouco apontar de quem a culpa é maior. Essas guerras causam tragédias humanitárias irreparáveis e isso já deveria ser mais do que suficiente para justificar suas interrupções imediatas. Mas o mundo assiste atônito à escalada dos conflitos, principalmente no Oriente Médio, uma área considerada muito sensível tanto do ponto de vista político e econômico. O que mais assusta é que as organizações internacionais multilaterais têm sido inúteis para intermediar uma solução pacífica para esses dois maiores confrontos armados em andamento.

Esse vazio institucional e essa desgovernança global preocupam. E muito! Em 2025 completaremos 30 anos que os países do mundo se reúnem anualmente para tratar como está o cumprimento do principal objetivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês, criada em 1992): estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa em um nível que impeça uma interferência perigosa do homem no sistema climático. Nesses quase 30 anos de Conferências das Partes (COPs), o que se viu foi um fracasso fragoroso da governança climática em cumprir com esse objetivo. Apesar de todos os esforços e dos dois grandes acordos firmados (Kyoto e Paris, esse último ainda vigente), as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera vêm subindo constantemente, mesmo quando as emissões foram reduzidas em 2020 por causa da pandemia.

Em um contexto de guerras pelo mundo, principalmente em uma região importante para a produção de petróleo e essencial para o transporte mundial de mercadorias, a governança climática pode aprofundar ainda mais o seu fracasso. A busca de consensos, que é como as organizações internacionais do sistema ONU baseiam suas dinâmicas, necessita de um ambiente de paz ou sem grandes turbulências geopolíticas para poder avançar. As experiências passadas demonstram isso com muita clareza. Reuniões e cúpulas internacionais que se seguiram a eventos econômicos e geopolíticos perturbadores tendem a ter resultados muito tímidos. Aconteceu isso com a Rio + 10 em Joanesburgo (2002) e a COP 15 em Copenhague (2009). Em 2002 o mundo estava vivendo o rescaldo dos ataques às torres gêmeas e a prioridade era o combate ao terrorismo, pelo menos do ponto de vista dos EUA, atores relevantes demais para mudarem o rumo das discussões. Em 2009, por sua vez, o mundo estava vivendo a ressaca da crise financeira de 2008 e, portanto, a ordem era a recuperação econômica. O clima viria depois…

É muito alto o risco de 2025 repetir 2002 e 2009 caso as guerras continuem. Belém está envolta em um grande otimismo assim como estava Copenhague em 2009. Dentre outros, os motivos pelos quais se espera muito da COP-30 são o fato de a conferência ser considerada a primeira efetivamente em plena Amazônia, o anfitrião ser um país supostamente comprometido com os avanços das negociações (apesar de suas contradições internas), e estarmos comemorando 10 anos do principal acordo climático obtido até então (o Acordo de Paris) e 30 anos de conferências das partes. Chega a ser temerário o excesso de confiança no avanço das negociações em uma conferência que pode se dar em um contexto de guerras mais regionalizadas pelo mundo. Ainda mais em um momento que fica muito clara a severidade dos impactos de um clima alterado.

O texto não é uma tentativa de agourar infortúnios para a COP-30. Ao contrário, é necessária toda torcida possível para que o Brasil faça bonito em termos de receptividade e habilidade diplomática para conseguir avanços importantes na implementação do Acordo de Paris. Mas o descalabro das guerras – e principalmente a incapacidade de as instituições multilaterais interromperem esse ciclo insano de destruição – anuncia uma barafunda ainda maior na governança global, sugerindo que nesse caso o melhor seria se contentar com o ceticismo da razão.

Por último, mas não menos importante, é preciso lembrar (e divulgar!) que o próximo evento da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, que acontecerá em setembro de2025 em Cruzeiro do Sul, no Acre, tratará da Amazônia rumo à COP-30. Os pesquisadores dessa importante área do conhecimento pretendem se reunir dois meses antes da realização da reunião em Belém para discutir e refletir, principalmente a partir de um ponto de vista crítico, sobre como a conferência pode realmente trazer avanços concretos na luta contra as mudanças climáticas. O encontro também pretende abordar aspectos da relação entre a economia dos povos da floresta e a luta climática.

 

Daniel Caixeta Andrade, Professor Associado do IERI-UFU e membro do GEMAECO.

 

 

 

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