Por Daniela Doms
“O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura”. Foi com esta afirmação que se colocou fim a divisão da classe operária alemã, no Congresso de Gotha, em 1875. A visão predominante nas correntes econômicas clássicas, filha legítima do projeto iluminista-científico de dominação da natureza pela razão humana, transformou o trabalho em mito fundador da riqueza, cristalizando-o no imaginário moderno.
De fato, o trabalho é produtor de riquezas, porém, ele só é possível enquanto força mediadora da produção social: extrai, transforma, combina e organiza, mas sempre dependente de algo preexistente. O artesão não cria o vaso do nada, vazio; ele modela a argila, extraída da terra. O agricultor não gera o trigo por mero esforço; ele cultiva a terra, planta a semente (fruto de ciclos naturais anteriores) e depende da chuva, do sol e dos nutrientes do solo. O operário na fábrica não cria o metal; ele manipula minérios formados por processos geológicos milenares.
O trabalho humano é, portanto, intrinsecamente dependente das condições materiais (recursos naturais, energia, leis físicas e químicas) para se realizar e produzir algo de valor. Sem esses substratos materiais oferecidos pela Natureza, o trabalho mais intenso e qualificado seria absolutamente estéril. A verdadeira fonte primordial e sustentáculo de toda riqueza é a Natureza, a base que sustenta não apenas a economia, mas a própria vida.
A energia solar que aquece o planeta e impulsiona os ciclos climáticos e hidrológicos; os minérios e combustíveis fósseis formados ao longo de eras geológicas; a fertilidade do solo, construída por processos biológicos lentos; a água potável, filtrada e distribuída pelos ecossistemas; o ar respirável, mantido em equilíbrio por complexas interações biológicas, constituem a infraestrutura vital pré-econômica.
Sem essa base material, não há matéria-prima para transformar, não há energia para impulsionar a produção, não há condições para a própria existência da força de trabalho. É o trabalho da Natureza, realizado gratuitamente, incessantemente e em escala planetária, que gera e regenera os recursos básicos, mantém os ciclos vitais e as condições de habitabilidade do planeta. É este trabalho não-humano, não reconhecido e não remunerado, que verdadeiramente sustenta a teia da vida e, por consequência, qualquer possibilidade de riqueza humana.
A tese que atribui ao trabalho humano a exclusividade na geração de riqueza é uma miopia antropocêntrica e economicista. O trabalho humano é um processo mediador e transformador, crucial, mas secundário e dependente. O erro trágico que fundamenta a crise ecológica atual é ignorar o trabalho fundamental da Natureza, tratando-a como mera “externalidade” ou recurso infinito a ser explorado. Antes do homem extrair, plantar ou fabricar, a Terra já trabalhava germinando sementes, filtrando rios e tecendo ecossistemas. A crença no crescimento infinito via trabalho humano ignora que a Terra é um sistema fechado e entrópico.
Daniela Doms, Mestre em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento (UEL), Doutoranda em Economia Política Mundial (UFABC). Pesquisadora na área de Meio Ambiente, Economia, Agricultura e Ecofeminismo.
Tags: crise ecológica, Economia Ecológica, MacroEconomia Ecológica, reprodução social