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O número mais poderoso do mundo¹

 

O PIB “mede tudo, … , exceto aquilo que faz a vida valer a pena.” – (Robert F. Kennedy, 1968).

 

Fonte: criada pela IA do Canva.

 

Por Junior Garcia

 

O Produto Interno Bruto, ou PIB, é sem dúvida o indicador econômico mais famoso do planeta. É uma verdadeira celebridade no mundo da economia, tão presente nos noticiários quanto nas conversas informais. Não importa se você está em casa, assistindo TV, ou em uma conversa casual: em algum momento, você já ouviu falar do PIB. Seja em tempos de prosperidade ou crise, ele é o centro das atenções. As previsões sobre o crescimento ou declínio do PIB dominam as manchetes e pautam discussões entre especialistas, empresas e governos, influenciando decisões que afetam diretamente nossas vidas. Mas o que faz desse número algo tão poderoso?

O conceito por trás do PIB surgiu na década de 1930, nos Estados Unidos, quando o economista Simon Kuznets apresentou a ideia de “renda nacional”. Seu objetivo era simples: condensar o desempenho da economia em um único número. No entanto, a tarefa de medir a produção econômica não era tão simples quanto parecia. A economia abrange uma vasta gama de produtos – de maçãs a automóveis, de serviços a moradias. Como somar tudo isso? A solução foi encontrar uma unidade comum, e essa unidade foi o valor monetário, ou seja, os preços dos produtos. Assim, o PIB passou a ser definido como o valor de mercado de todos os bens e serviços finais produzidos em um país ao longo de um período determinado, geralmente um ano.

Essa abordagem tornou-se incrivelmente útil, mas não sem consequências. O uso do valor monetário como base de cálculo trouxe um benefício prático: finalmente era possível mensurar o desempenho econômico de forma padronizada. No entanto, o custo foi a desconexão entre o PIB e a realidade biofísica. O PIB se afastou dos recursos naturais necessários para a produção, bem como dos resíduos gerados por ela. Com o tempo, o PIB passou a ser visto quase como uma entidade viva, mas completamente dissociada de sua base material. O crescimento do PIB – conhecido como “crescimento econômico” – tornou-se uma meta constante, amplamente interpretada como algo inerentemente positivo.

O problema é que esse “crescimento” ignora custos importantes. Quando o PIB cresce, pouco se fala sobre o impacto ambiental, social ou mesmo sobre as condições de vida das pessoas. O uso de recursos naturais e a poluição gerada pela atividade econômica são amplamente negligenciados. Em outras palavras, o aumento do PIB é celebrado sem que se levem em conta os danos que podem ser causados à sociedade e ao meio ambiente.

Kuznets, o próprio criador do conceito de renda nacional, alertou que o PIB também não deveria ser utilizado como medida de bem-estar. O PIB não foi criado para medir qualidade de vida, felicidade ou satisfação das pessoas. No entanto, ao longo das décadas, o PIB se tornou o pilar central das teorias macroeconômicas e das políticas econômicas globais. A ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, desenvolveu um manual de instruções para que todos os países pudessem calcular seus respectivos PIBs de maneira uniforme, criando o Sistema de Contas Nacionais. Isso permitiu comparações internacionais e fomentou a criação de rankings globais baseados nos PIBs nacionais.

Com o tempo, o crescimento do PIB passou a ser associado a melhorias em áreas como saúde, educação e segurança, e o PIB per capita tornou-se um atalho para medir o padrão de vida de uma população. No entanto, essa relação entre PIB e bem-estar é, no mínimo, incompleta. O PIB, embora importante para avaliar o tamanho de uma economia, falha em refletir fatores essenciais para a qualidade de vida, como a distribuição de riqueza, o acesso a serviços básicos ou os impactos ambientais. Por isso, como bem apontou Robert Kennedy em 1968, o PIB “mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena.”

 

Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.

 

Notas

 

¹ O Chat GPT foi utilizado na revisão da redação e organização do artigo. O artigo foi inspirado no trabalho do Lorenzo Fioramonti, The world’s most powerful number: an assessment of 80 years of GDP ideology, 2014.

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