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Os limites da Economia da Complexidade¹

Imagem preparada pelo ChatGPT.

Uma nova linguagem para uma velha ontologia: crescimento, valor monetário e uma economia imaginária

Por Junior Garcia

A chamada Economia da Complexidade tem sido frequentemente apresentada como uma inovação relevante no debate sobre desenvolvimento econômico. No Brasil, a Complexidade tem sido apresentada como a solução para os históricos problemas socioeconômicos. Ao deslocar o desafio do desenvolvimento para a estrutura produtiva, que não é nova na literatura econômica, essa abordagem parece oferecer uma alternativa mais sofisticada às métricas tradicionais. A ênfase na diversidade produtiva, na sofisticação tecnológica e nas redes de capacidades sugere um avanço na compreensão das diferenças entre países ricos e pobres e, não raramente, é apresentada como a revelação da origem das riquezas das nações. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que essa proposta, apesar de seu refinamento empírico e de uma base teórica frequentemente frágil ou ausente, permanece profundamente enraizada em pressupostos tradicionais da teoria econômica, reproduzindo limitações historicamente conhecidas sob uma nova linguagem.

O primeiro ponto que merece atenção diz respeito ao propósito da atividade econômica. A Economia da Complexidade parte da ideia de que ampliar a sofisticação produtiva é, por si só, um objetivo desejável pela sociedade. Entretanto, essa premissa não responde a uma questão fundamental que deveria orientar qualquer teoria do desenvolvimento: por que produzimos bens e ofertamos serviços? Certamente não é simplesmente para gerar renda monetária. A economia não existe para maximizar a complexidade produtiva ou valores monetários, mas para garantir a provisão de condições materiais e sociais que sustentam a vida humana, isto é, assegurar a reprodução socioecológica das sociedades. Quando essa dimensão é negligenciada, ocorre uma inversão silenciosa, mas decisiva e preocupante, na qual os meios passam a ser tratados como fins, característica recorrente da economia convencional. A complexidade deixa de ser um atributo potencialmente útil e passa a ser tomada como sinônimo de desenvolvimento. Como consequência, atividades essenciais à reprodução socioecológica das sociedades, muitas vezes pouco sofisticadas do ponto de vista tecnológico, tendem a ser desvalorizadas e ignoradas, enquanto atividades de elevado valor de mercado, mas de relevância social limitada ou com impactos ambientais significativos, são implicitamente valorizadas e exaltadas como sinônimo de modernidade, desenvolvimento e riqueza. Esse é o caso de bens de luxo ou posicionais, que apresentam elevadíssimos valores de mercado, mesmo sendo intensivos em matéria e energia e na geração de resíduos. Vale destacar que a matéria e a energia que sustentam essas atividades são, em grande medida, extraídas de regiões e países pobres, uma vez que os custos sociais e ambientais dessa extração são sistematicamente externalizados.

Essa distorção está diretamente associada ao modo como o valor econômico é concebido. Ainda que a Economia da Complexidade utilize dados sobre a estrutura produtiva, seus resultados são sistematicamente validados pela capacidade de explicar diferenças de renda entre países, inclusive qualificando populações em diferentes regiões por um suposto diferencial de produtividade, medida, evidentemente, apenas em termos monetários. Isso revela a centralidade da métrica monetária como critério último de avaliação da riqueza ou de desenvolvimento. O problema é que valores monetários não expressam necessidades sociais, mas sim disposições a pagar, condicionadas pela distribuição de renda. A moeda, por si só, não constitui uma restrição material, sua emissão pode ser expandida por decisões institucionais, mas a disponibilidade de matéria e energia para sustentar a produção e o consumo não pode ser criada por decreto. Em outras palavras, aquilo que aparece como economicamente relevante é, em grande medida, aquilo que pode ser pago por quem possui renda suficiente. Esse deslocamento tem implicações profundas. Demandas associadas a grupos de alta renda são amplificadas, enquanto necessidades fundamentais de populações de baixa renda permanecem sub-representadas ou invisíveis. A economia, nesse enquadramento, deixa de ser compreendida como um sistema de provisão e passa a operar como um mecanismo de validação monetária de preferências desigualmente distribuídas.

A ausência da demanda como elemento estruturante reforça esse problema. A Economia da Complexidade é, essencialmente, uma teoria orientada pela oferta, que historicamente já se mostrou limitada para explicar processos econômicos nacionais. O desenvolvimento, que sequer é definido de forma rigorosa, é concebido como resultado da ampliação de capacidades produtivas, expressas na diversificação e sofisticação das exportações, tudo representado por valor monetário. A complexidade é tratada como sinônimo de desenvolvimento, sem que se esclareça o que exatamente se entende por ambos os termos. No entanto, a realização da produção depende da existência de demanda efetiva, o que envolve renda (no sistema capitalista, mas existem outras formas de alocação e distribuição que prescindem de renda ou da moeda), expectativas e distribuição. Ao não incorporar explicitamente essa dimensão, a abordagem reproduz a lógica da Lei de Say, segundo a qual a oferta criaria automaticamente sua própria demanda por bens sofisticados, também sem definição clara. Essa suposição é particularmente problemática em economias marcadas por elevada desigualdade e restrições de mercado interno, como é o caso brasileiro. Mais do que isso, a demanda global está concentrada em regiões específicas do sistema econômico e político internacional, o que significa que o acesso a mercados não depende apenas da capacidade de produzir, mas da posição que cada país ocupa em uma estrutura global profundamente assimétrica.

É nesse contexto que se torna inevitável enfrentar uma questão raramente explicitada pela abordagem: quem sustentaria a base material e energética de um mundo em que todos os países buscassem se tornar “complexos”? A Economia da Complexidade sugere, ainda que implicitamente, que países podem ascender na hierarquia global ao desenvolver estruturas produtivas mais sofisticadas. No caso do Brasil, isso se traduz na expectativa de que a ampliação da complexidade industrial permitiria ocupar espaços atualmente dominados por economias desenvolvidas ou pela China. Essa hipótese, no entanto, ignora que a estrutura produtiva global não é expansível indefinidamente na mesma direção para todos os países. Se múltiplas economias buscarem simultaneamente produzir os mesmos bens complexos, a tendência será de intensificação da concorrência, compressão de margens e saturação de mercados. Sem contar o colapso do ecossistema global. Mais fundamentalmente, ignora-se que a complexidade observada nas economias centrais depende de um arranjo global no qual a produção intensiva em matéria e energia, bem como o fornecimento de recursos naturais, permanece concentrada em países periféricos ou, como qualificados pela Economia da Complexidade, pouco complexos. A generalização da complexidade implicaria uma reconfiguração impossível dessa divisão internacional do trabalho. Essa impossibilidade já havia sido apontada por Celso Furtado, ao discutir os limites do desenvolvimento nos anos 1970, ao demonstrar que o padrão de consumo e produção dos países centrais não pode ser universalizado sem colidir com restrições estruturais e materiais.

Essa questão não se limita à escala internacional. Mesmo no interior de um país como o Brasil, a generalização da complexidade produtiva enfrenta limites claros. Seria plausível supor que todos os estados brasileiros poderiam alcançar simultaneamente o mesmo padrão de complexidade produtiva? Tal hipótese desconsidera a heterogeneidade regional, as restrições infraestruturais, as diferenças na base de recursos naturais e, sobretudo, os limites biofísicos, sociais e econômicos que condicionam a organização produtiva. A ideia de uma trajetória única e universal de desenvolvimento revela, assim, um reducionismo que ignora a diversidade estrutural das economias e finitude do ecossistema global.

A ausência da dimensão biofísica aprofunda ainda mais essas limitações. A complexidade econômica é definida em termos informacionais e monetários, o valor adicional ou agregado, associada à diversidade e à ubiquidade dos bens produzidos, mas não considera os fluxos de matéria e energia que sustentam esses processos. No entanto, estruturas produtivas mais complexas tendem a depender de cadeias mais longas, maior consumo energético e maior intensidade material. Ignorar essa dimensão implica tratar o processo econômico como se estivesse dissociado de suas bases biofísicas e energéticas, o que contraria uma compreensão elementar da economia como um subsistema aberto inserido em um sistema ecológico finito. Nesse sentido, a crítica de Nicholas Georgescu-Roegen é incontornável: a atividade econômica está submetida à lei da entropia, o que impõe limites à expansão contínua da produção, independentemente de sua sofisticação tecnológica.

Essa limitação torna-se ainda mais evidente quando se observa o tratamento implícito conferido ao setor agropecuário. A Economia da Complexidade tende a subestimar sua importância, na medida em que privilegia bens industriais sofisticados e transacionáveis como expressão superior do desenvolvimento. Essa hierarquização ignora que as atividades econômicas são qualitativamente distintas e não podem ser reduzidas a uma métrica monetária comum sem perda analítica relevante. A produção de alimentos possui uma natureza estratégica que não pode ser capturada adequadamente por seu valor de mercado, ou seja, pela disposição a pagar. Trata-se de um setor diretamente vinculado à reprodução biológica da sociedade, cuja estabilidade é condição necessária para a estabilidade social e política. Países classificados como altamente complexos não prescindem de um setor agropecuário robusto; ao contrário, historicamente consolidaram estruturas agrícolas capazes de garantir, ao menos em termos de itens básicos, níveis significativos de segurança alimentar. A instabilidade na oferta de alimentos essenciais constitui, em qualquer contexto histórico, um dos vetores mais diretos de desorganização social. O 1% do PIB (Produto Interno Bruto) é decisivo na garantia da reprodução socioecológica e da estabilidade social e políticas dos países. O que aconteceria se os EUA perdessem completamente seu setor agropecuário? Segundo os economistas convencionais, nada, afinal, representa apenas 1% de sua produção econômica.

Ao mesmo tempo, a trajetória de aumento da complexidade econômica observada nos países desenvolvidos não pode ser compreendida sem considerar a base material externa que a sustenta. A disponibilidade de recursos naturais provenientes de países em desenvolvimento e pobres, a existência de mercados consumidores com elevado poder de compra e a estrutura institucional que viabiliza o comércio internacional, incluindo transporte marítimo, seguros e serviços financeiros, constituem elementos centrais desse processo econômico. Tudo isso, por sua vez, está profundamente ancorado em uma matriz energética baseada em combustíveis fósseis, particularmente o petróleo e seus derivados. Não aprendemos nada com as crises do petróleo, nem mesmo com a recente? A complexidade, nesse sentido, não é um fenômeno puramente informacional, tecnológico ou de valor monetário adicionado, mas uma configuração histórica sustentada por fluxos materiais, energéticos e institucionais em escala global. Mesmo as propostas de transição energética não têm, até o momento, alterado esse quadro de forma estrutural, em grande medida devido à adicionalidade energética observada.

Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito à natureza dos serviços. A abordagem da complexidade baseia-se fundamentalmente em bens transacionáveis, o que leva a uma sub-representação do setor de serviços. No entanto, serviços possuem características econômicas específicas: são, em grande medida, produzidos sob demanda, não podem ser estocados e dependem de coordenação temporal entre oferta e demanda, além de também estarem ancorados em uma base material e energética. Além disso, muitos serviços estão diretamente relacionados à reprodução socioecológica, como saúde, educação, cuidado e qualidade ambiental. Ao ignorar essa dimensão, a Economia da Complexidade deixa de captar justamente os setores mais diretamente vinculados ao bem-estar e à manutenção das condições de vida.

Por fim, há uma questão conceitual que atravessa toda a abordagem. A noção de complexidade, embora operacionalizada por meio de índices, carece de uma definição teórica rigorosa. Nesse sentido, a crítica de Nicholas Georgescu-Roegen à tentativa de transformar conceitos qualitativos, de natureza dialética, em medidas quantitativas é particularmente pertinente. A complexidade parece pertencer ao domínio das noções dialéticas, caracterizadas por fronteiras difusas e dependentes do contexto. Ao reduzi-la a um número, a abordagem incorre em um processo aritmomórfico, criando uma aparência de precisão que pode obscurecer sua própria indeterminação.

Diante desse conjunto de limitações, torna-se possível compreender a Economia da Complexidade não como uma ruptura, mas como uma reformulação rejuvenescida de uma visão já conhecida. Trata-se de uma economia imaginária, na qual a produção é um fim em si mesma, que ignora aspectos qualitativos fundamentais do processo econômico, mercados são implicitamente expansíveis e os limites materiais e energéticos são desconsiderados. Nesse enquadramento, o desenvolvimento é reduzido à capacidade de produzir bens cada vez mais sofisticados, medidos exclusivamente pelo valor monetário adicionado, independentemente de sua contribuição efetiva para a reprodução socioecológica das sociedades.

Uma abordagem alternativa exige uma mudança mais profunda de perspectiva. Em vez de perguntar quão complexa é uma economia, torna-se necessário perguntar em que medida sua organização produtiva, institucional e social é capaz de garantir, de forma equitativa e sustentável, as condições de vida da população, respeitando os limites socioecológicos. Nesse novo enquadramento, a complexidade deixa de ser um objetivo em si e passa a ser avaliada em função de sua contribuição para esse propósito mais fundamental.

Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.

Notas

¹ O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo. 

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