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Economia SocioEcológica: uma crítica à economia convencional e aos limites da própria Economia Ecológica¹

A crise ecológica é uma falha de mercado ou consequência estrutural da própria lógica de acumulação?

Por Junior Garcia

A ascensão das crises climática, energética, ecológica e social tem produzido um cenário curioso: quanto mais evidentes se tornam os limites biofísicos da reprodução das sociedades, mais a economia convencional insiste em tratar a realidade como um problema abstrato de preços, incentivos e escolhas individuais. Em resposta a esse impasse, começa a ganhar espaço uma proposta ainda pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos especializados: a Economia SocioEcológica.

Essa proposta surge de uma reflexão crítica sobre os próprios limites da Economia Ecológica, que, embora tenha desempenhado papel fundamental na incorporação dos limites biofísicos à análise econômica, mostrou dificuldades em romper de maneira mais profunda com os fundamentos ontológicos, epistemológicos e institucionais da economia convencional. A Economia SocioEcológica representa, portanto, uma tentativa de reconstrução do próprio objeto da economia.

O ponto de partida é simples, mas profundamente perturbador para a teoria econômica dominante: a economia não pode ser reduzida ao estudo da escolha racional sob condições de escassez. Essa definição, consolidada ao longo do século 20 e associada à tradição neoclássica, transformou praticamente toda ação humana em um problema de maximização individual ancorado no homo economicus. Comprar café, casar, ter filhos, preservar uma floresta ou até cometer suicídio passaram a ser interpretados sob a mesma lógica analítica da escolha racional.

O problema é que, ao fazer isso, a economia deixou de discutir aquilo que deveria ser sua questão central: como as sociedades organizam as condições materiais, institucionais e ecológicas necessárias à reprodução da vida.

A Economia SocioEcológica propõe recuperar essa dimensão esquecida, e, em certa medida, marginalizada pela própria Economia Ecológica, recolocando no centro da análise econômica as instituições, as relações de poder, os conflitos distributivos e os mecanismos sociais que estruturam o processo econômico. Em vez de compreender a economia como um mecanismo de alocação eficiente, a Economia SocioEcológica a define como o estudo do provimento social necessário à satisfação das necessidades humanas dentro de limites biofísicos e de princípios éticos de cuidado e justiça socioambiental. Essa mudança aparentemente conceitual altera profundamente o significado do próprio processo econômico.

A pergunta deixa de ser “como maximizar utilidade ou lucro?” e passa a ser “o que precisa ser reproduzido para que uma sociedade continue existindo?”.

Essa mudança desloca a análise econômica do indivíduo isolado e calculador para as estruturas sociais, para as instituições, para as relações de poder e para os ecossistemas que sustentam materialmente a existência humana. Afinal, nenhuma economia existe fora da natureza. Toda sociedade depende continuamente de fluxos de energia, materiais, água, solo fértil e biodiversidade. O sistema econômico não produz matéria nem energia; apenas transforma aquilo que extrai da natureza, sujeito às leis da termodinâmica. A economia e a sociedade são, portanto, processos metabólicos.

Essa percepção, fortemente influenciada por Nicholas Georgescu-Roegen, rompe com a visão convencional da economia como um fluxo circular abstrato entre empresas e famílias. A produção de serviços, o setor financeiro, a inteligência artificial e a economia digital não escapam dessa dependência material. Todos exigem infraestrutura física, eletricidade, mineração, transporte, água, alimentos e trabalho humano. A suposta “desmaterialização” da economia moderna revela-se, em grande medida, uma ilusão produzida pela invisibilização dos processos biofísicos que sustentam o sistema econômico global.

Mas a crítica da Economia SocioEcológica vai além da biofísica e questiona também a própria estrutura social do capitalismo contemporâneo, frequentemente ausente ou marginal na Economia Ecológica. Mercados não são mecanismos neutros de coordenação, mas estruturas historicamente construídas que dependem de relações de poder, instituições jurídicas, ação estatal e mecanismos de coerção social. As grandes corporações não apenas respondem à demanda, mas ajudam a produzi-la. A sociedade de consumo não surgiu espontaneamente da liberdade individual, mas de estratégias contínuas de publicidade, obsolescência planejada, financeirização e construção social das necessidades.

Nesse sentido, a crise socioecológica não pode ser compreendida simplesmente como resultado de “falhas de mercado”. Trata-se de uma consequência estrutural de um sistema econômico orientado pela acumulação contínua de capital, pela expansão permanente da produção e pelo aumento incessante do consumo material.

Um dos aspectos mais provocativos da Economia SocioEcológica é sua crítica não apenas à economia convencional, mas também à própria Economia Ecológica. Segundo Clive L. Spash, parte significativa da Economia Ecológica acabou incorporando elementos centrais da racionalidade econômica dominante, especialmente ao aceitar a monetização da natureza, a linguagem da eficiência e os mecanismos de mercado como instrumentos centrais para enfrentar a crise ambiental.

A transformação de florestas em “capital natural”, de ecossistemas em “serviços ecossistêmicos” e da estabilidade climática em créditos negociáveis de carbono talvez represente menos uma ruptura com a lógica econômica dominante e mais sua expansão para novas dimensões da vida e da natureza.

A questão que emerge é inevitável: “precificar” a natureza significa protegê-la ou apenas aprofundar a sua mercantilização?

Essa crítica recoloca no centro da discussão econômica temas marginalizados pela teoria convencional, como poder, desigualdade, gênero, trabalho não remunerado, reprodução social, colonialismo, metabolismo social e dependência ecológica. Ao mesmo tempo, a Economia SocioEcológica recupera uma questão clássica, mas esquecida: o objetivo da economia não deveria ser o crescimento infinito da produção material, sintetizado no PIB, mas a manutenção das condições necessárias à continuidade da vida humana coletiva dentro dos limites socioecológicos do planeta.

Isso exige uma transformação muito mais profunda do que ajustes de preços ou incentivos verdes. Exige reconsiderar o que produzimos, para quem produzimos, por que produzimos e quais estruturas sociais tornam esse sistema possível.

A própria emergência da Economia SocioEcológica revela tensões internas da Economia Ecológica. Embora esta tenha desempenhado papel decisivo ao recolocar os limites biofísicos no centro da análise econômica, parte de seus pesquisadores passou a questionar sua capacidade de romper com os fundamentos ontológicos, epistemológicos e institucionais da economia convencional. Em muitos casos, a crítica ecológica acabou coexistindo com categorias centrais da racionalidade econômica dominante, como eficiência, monetização, precificação, mecanismos de mercado e a lógica capitalista.

A Economia SocioEcológica surge desse desconforto teórico. Sua emergência expressa a percepção de que a crise socioecológica não pode ser compreendida apenas como desequilíbrio entre economia e natureza, mas como resultado histórico de estruturas sociais, relações de poder e processos de acumulação que organizam simultaneamente a exploração do trabalho humano e da natureza. Nesse sentido, talvez a principal questão colocada pela Economia SocioEcológica não seja apenas como tornar a economia sustentável, mas se a própria racionalidade econômica dominante é compatível com a reprodução socioecológica da vida. A resposta para essa pergunta talvez defina não apenas o futuro da economia, mas o futuro da própria civilização.

Junior Garcia – Professor doDepartamento de Economia e Coordenador doGrupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO)daUniversidade Federal do Paraná.

Notas

¹ O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo. 

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