
Por Junior Garcia
A ideia de que a economia contemporânea teria se tornado “imaterial”, baseada em serviços, finanças, moeda e fluxos digitais, não é apenas uma simplificação analítica; trata-se de um dos mitos mais persistentes da interpretação econômica recente, o “mito da imaterialidade do PIB”. O PIB (Produto Interno Bruto), ao privilegiar o valor monetário agregado, obscurece as bases materiais e energéticas que sustentam a produção econômica. À medida que setores como serviços, bancários e finanças ganham peso relativo nas contas nacionais, consolida-se a impressão de que a economia teria se tornado menos dependente de recursos naturais. No entanto, essa conclusão resulta de uma limitação do indicador, e não de uma transformação real do sistema econômico.
Nenhuma atividade econômica, inclusive aquelas consideradas mais “abstratas”, está dissociada de sua base biofísica. O sistema monetário-financeiro, frequentemente apresentado como autônomo em relação à produção material, depende de uma infraestrutura extensa e intensiva em energia e materiais: centros de dados, redes digitais, equipamentos eletrônicos, sistemas de comunicação e segurança. Essa infraestrutura não apenas viabiliza as transações monetário-financeiras, mas também cresce em complexidade e escala à medida que o próprio sistema se expande.
A mesma dinâmica se aplica ao setor de serviços. A sua expansão não representa uma desmaterialização da economia, mas uma reorganização de sua materialidade. Serviços de saúde, educação, transporte, logística e plataformas digitais dependem de cadeias produtivas globais, de sistemas energéticos robustos e de uma base material que, muitas vezes, permanece invisível nas estatísticas econômicas. A aparente leveza desses setores é, em grande medida, um efeito de deslocamento: os fluxos materiais e energéticos são externalizados, fragmentados ou incorporados em infraestruturas que não aparecem diretamente no valor agregado.
Essa desconexão entre representação monetária e realidade biofísica reforça a crítica central ao PIB como medida de desenvolvimento. Ao tratar atividades econômicas como fluxos de valor monetário, o indicador desconsidera os processos biofísicos que tornam esses fluxos possíveis. Com isso, cria-se a ilusão de que o crescimento do PIB pode prosseguir independentemente da disponibilidade de energia, da extração de materiais e da capacidade dos ecossistemas de absorver resíduos.
A abordagem biofísica da economia permite reverter essa ilusão ao recolocar a energia e a matéria no centro da análise. Conceitos como excedente energético e retorno energético sobre o investimento (EROI) evidenciam que a complexidade econômica, incluindo sistemas financeiros sofisticados e economias de serviços, depende de uma base energética suficiente para sustentar suas estruturas. Não se trata apenas de produzir mais, mas de garantir que haja energia líquida disponível para manter o funcionamento do sistema como um todo.
Nesse contexto, a expansão do sistema financeiro assume um significado particular. A acumulação de ativos e a expansão da dívida representam direitos sobre produção futura, isto é, sobre a mobilização futura de energia e materiais. Quando essas promessas se expandem em ritmo superior à capacidade biofísica de sustentá-las, emergem tensões que se manifestam em crises econômicas, instabilidade financeira e pressões ambientais crescentes. A financeirização, longe de representar uma autonomização da economia em relação à natureza, pode ser interpretada como um mecanismo que antecipa e, em certa medida, intensifica, o uso de recursos materiais e energéticos futuros.
Assim, a ideia de uma economia imaterial revela-se não apenas equivocada, mas potencialmente perigosa. Ao obscurecer os fundamentos biofísicos do sistema econômico-financeiro, essa narrativa contribui para a formulação de estratégias de desenvolvimento que ignoram limites biofísicos e reforçam padrões insustentáveis de produção e consumo. A digitalização, a expansão dos serviços e a sofisticação financeira não eliminam a materialidade da economia; apenas a tornam menos visível.
Reconhecer essa realidade implica revisar não apenas indicadores, mas a própria compreensão do processo econômico. O PIB, tal como construído, não captura as condições materiais e energéticas que sustentam a atividade econômica nem os limites que a condicionam. A crítica ao mito da imaterialidade do PIB, portanto, não é apenas uma questão metodológica, mas uma exigência teórica e política: é preciso reconectar a análise econômica às bases biofísicas que tornam possível a vida social.
Em última instância, o desafio não está em tornar a economia imaterial, algo que não é fisicamente possível, mas em reorganizá-la de forma compatível com os limites energéticos e socioecológicos do planeta. Ignorar essa condição não elimina os constrangimentos biofísicos; apenas posterga seu reconhecimento, tornando seus efeitos mais intensos e mais difíceis de administrar.
Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.
Notas
¹ Inspirado no artigo MELGAR-MELGAR, R. E.; HALL, C. A. S. Why ecological economics needs to return to its roots: The biophysical foundation of socio-economic systems. Ecological Economics, v. 169, p. 106567, 1 mar. 2020. O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo.
Tags: desacoplamento, economia monetária, imaterial, mercado financeiro, PIB