
Por Junior Garcia
Os economistas adoram repetir que o objetivo da economia é gerar empregos e renda. Dizem isso com a tranquilidade de quem recita um dogma, não uma hipótese. Curiosamente, o mesmo economista, ao abrir seu manual de teoria econômica, dedica centenas de páginas a ensinar como as empresas devem fazer exatamente o oposto: maximizar lucros reduzindo custos — especialmente o custo do trabalho.
Não é contradição acidental. É método.
Na teoria econômica dominante, o trabalhador não é sujeito social, é variável de ajuste. O salário não é renda, é despesa. O emprego não é objetivo, é imperfeição. Quanto menos trabalho por unidade produzida, melhor. Quanto mais facilmente substituível, terceirizável ou descartável o trabalhador, mais “eficiente” o sistema. Depois, com notável cinismo analítico, pergunta-se por que faltam empregos.
A resposta está na própria teoria.
O avanço tecnológico, celebrado como libertação do trabalho, vira justificativa para sua eliminação. A precarização é rebatizada de flexibilidade. A informalidade, de empreendedorismo. O desemprego estrutural, de falta de qualificação. Tudo é explicado, exceto o óbvio: uma economia organizada para reduzir trabalho não pode, ao mesmo tempo, prometer empregos.
Durante décadas, a solução mágica foi o crescimento econômico. Crescer resolveria tudo. Se não gera emprego hoje, gerará amanhã. Se concentra renda agora, distribuirá depois. Só havia um pequeno detalhe ignorado: o planeta. A Economia Ecológica tem insistido, quase em vão, que crescimento material infinito em um sistema finito não é apenas improvável — é impossível. Ainda assim, a teoria econômica segue tratando os limites biofísicos como externalidades inconvenientes, algo a ser resolvido com mais mercado, mais tecnologia e, claro, mais crescimento.
O resultado é perverso. Crescer passa a significar produzir mais com menos gente, explorando mais energia, mais minerais, mais terra e mais tempo de vida humana. O sistema destrói empregos e ecossistemas ao mesmo tempo, mas segue se apresentando como solução para ambos. Quando falha, culpa o trabalhador, o Estado, o clima ou o excesso de direitos. Nunca a própria lógica.
A Economia Ecológica desmonta esse teatro ao lembrar o óbvio: a economia é um subsistema da biosfera, e não o contrário. Se há limites ao crescimento material, então a promessa de resolver o desemprego via expansão permanente da produção é uma fraude teórica. Não é que o crescimento “não esteja funcionando”. Ele está funcionando exatamente como foi desenhado: concentrando renda, poupando trabalho e exaurindo a base material que o sustenta.
Se o problema é estrutural, a solução não pode ser cosmética.
Levar a sério o emprego e a renda exige abandonar a obsessão pela maximização do lucro como princípio organizador da economia. Exige reconhecer o trabalho como finalidade social, não como custo a ser eliminado. Isso implica reduzir a jornada de trabalho sem redução de salário, redistribuindo os ganhos de produtividade em forma de tempo livre, não apenas de lucro. Implica desvincular sobrevivência de emprego, por meio de garantias universais de renda e acesso a bens e serviços essenciais. Implica reorganizar a produção em torno das necessidades sociais e dos limites ecológicos, e não da rentabilidade financeira de curto prazo.
Mais radical ainda: implica aceitar que uma economia sustentável pode — e provavelmente deve — crescer menos, ou não crescer, sem colapsar socialmente. Mas isso só é possível se abandonarmos a ideia de que empregos surgem magicamente do lucro e passarmos a tratá-los como uma escolha política e institucional.
Enquanto insistirmos em uma teoria econômica que promete empregos com a boca e os elimina com as equações, o desemprego seguirá sendo apresentado como acidente. Não é. É projeto. E talvez já esteja mais do que na hora de parar de fingir surpresa.
Junior Garcia – Professor do Departamento de Economia e Coordenador do Grupo de Estudos em MacroEconomia Ecológica (GEMAECO) da Universidade Federal do Paraná.
Notas
¹ O Chat GPT foi utilizado na sugestão de termos e ideias, revisão da redação, organização e ilustração do artigo.
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